Abelhas Sem Ferrão: Biodiversidade, Polinização e o Potencial Bioativo de seus Produtos

As abelhas sem ferrão (meliponíneos) representam um dos pilares mais vitais para a manutenção da biodiversidade e o fortalecimento das cadeias produtivas sustentáveis. Distribuídas amplamente pelo território brasileiro, especialmente na região Neotropical, essas abelhas nativas vão muito além da produção de mel, atuando como agentes fundamentais na polinização e na geração de insumos com alto valor agregado para as indústrias alimentícia e farmacêutica.

A importância ecológica dessas abelhas é estratégica para a agricultura. De acordo com Venturieri e Leon (2012), gêneros como Melipona, Scaptotrigona e Trigona desempenham papéis essenciais na polinização de culturas de alto valor econômico, incluindo solanáceas (tomate e pimenta) e frutos amazônicos como o açaí, o cupuaçu e o camu-camu. O manejo eficiente dessas colônias garante não apenas a produtividade agrícola, mas a conservação da flora nativa.

Diferente das abelhas Apis mellifera, as abelhas sem ferrão produzem méis com sabores peculiares e propriedades físico-químicas únicas. Segundo estudo publicado na Research, Society and Development (2022), o mel de meliponíneos possui um potencial funcional superior devido à presença de compostos bioativos que conferem ações antioxidantes, antimicrobianas, anti-inflamatórias e cicatrizantes.

Essa composição é exclusiva e influenciada pela origem botânica, espécie da abelha e clima, o que eleva seu valor de mercado e interesse científico.

Além do mel, o pólen (ou samburá) tem se destacado como um superalimento. Batista (2024) descreve o pólen como "grãos de ouro", ricos em proteínas, lipídios e flavonoides, com potencial para aplicação em produtos como pães, biscoitos e cervejas, atendendo à crescente demanda por alimentos funcionais.

Reforçando essa aplicação técnica, pesquisas recentes do GRAFA sobre a espécie amazônica Scaptotrigona depilis demonstraram que é possível extrair compostos fenólicos e flavonóides utilizando métodos sustentáveis. Segundo dois estudos publicados um na na Journal of Science & Sustainable Engineering (2025) (Prudente et al., 2025) e outro na Journal of Food and Composition (Bezerra et al., 2025) o uso de ultrassom assistido (UAE) com solventes aquosos e hidroalcoolicos alinhados aos princípios da Química Verde permitiu obter extratos com atividade antioxidante significativa, otimizando recursos naturais de forma eficiente e ecologicamente correta.

Existe também o geopropolis, que se trata de um material resinoso e complexo produzido especificamente por abelhas sem ferrão (meliponíneos). Diferente da própolis convencional produzida pelas abelhas Apis mellifera (que utilizam basicamente resinas vegetais e cera), o geopropólis possui uma característica única em sua formação por ter uma mistura de barro junto com a resina, o que deixa o material com alto teor de minerais. No review publicado pelo nosso grupo de pesquisa na revista  Food Research Internacional (Silva et al., 2025) O geopropólis destaca-se como um recurso biológico de valor inestimável devido à sua complexa composição de moléculas bioativas, que conferem propriedades antioxidantes, antimicrobianas e terapêuticas essenciais para o desenvolvimento de novos produtos naturais. Sua importância reside na singularidade química derivada da interação entre as espécies de abelhas sem ferrão, a localização geográfica e o período de coleta, fatores que geram uma diversidade de perfis químicos comparável à vasta biodiversidade das próprias abelhas. Mais do que um subproduto da colmeia, o geopropólis representa uma fronteira promissora para a ciência, exigindo estudos específicos para cada amostra a fim de validar seu potencial na promoção da saúde e consolidar seu papel como base para inovações farmacológicas e biotecnológicas.

Nosso grupo de pesquisa foca em preencher as lacunas científicas sobre as atividades funcionais desses produtos. Acreditamos que a valorização das abelhas sem ferrão é o caminho para integrar conservação ambiental, desenvolvimento tecnológico e saúde humana.

 

Referências bibliográficas

Andrade, B. B., Viana, E. B. M., Zanuto, M. E., & Souza, C. D. (2022). Honey from stingless bees: a review on chemical parameters, content of bioactive compounds and their therapeutic properties. Research, Society and Development, 11(16), 77111637618.

Batista, C. A. (2024). Propriedades terapêuticas dos “grãos de ouro”: o pólen das abelhas sem ferrão.

Prudente, E., Machado, C. H., dos Santos, M., Bezerra, F., de Lima Nunes, E., Komesu, A., ... & da Silva Martins, L. H. (2025). Optimization of the extraction process of phenolic compounds from native bee pollen from Amazon using water with ultrasound assisted through experimental design. JSSE-Journal of Science & Sustainable Engineering, 3(1), 10-10.

Silva, J. D. M., Bezerra, F. W. F., Martins, I. R., Fontanari, G. G., de Oliveira, J. A. R., & da Silva Martins, L. H. (2025). Propolis and geopropolis from stingless bees as a source of bioactive compounds with antioxidant and antimicrobial action: A review. Food Research International, 214, 116674.

Venturieri, G. C., & Leon, F. A. (2012). Biodiversidade de Abelhas na Amazônia: os Meliponíneos e seu Uso na Polinização de Culturas Agrícolas. III Semana dos Polinizadores: palestras e resumos, 26.