Andiroba: O Potencial Medicinal e Econômico da Amazônia

Autor da publicação: Vinícius Sidonio Vale Moraes

A andiroba (Carapa guianensis) (Figura 1) é uma árvore de grande porte nativa da Amazônia, cuja madeira de alta qualidade é amplamente valorizada na marcenaria fina. No entanto, sua verdadeira riqueza reside nos frutos. Uma árvore adulta pode produzir anualmente cerca de 190 kg de sementes, sendo necessários aproximadamente 22 kg para a obtenção de um litro de óleo, embora essa produtividade anual possa oscilar conforme as variações climáticas. Na medicina tradicional, todas as partes da planta (casca, caule, folhas e frutos) são reconhecidas por suas propriedades terapêuticas (Raspe et al., 2024).

Figura 1 – Sementes de andiroba (C. guianensis)

Fonte: O próprio autor

 

Diferentes Técnicas para Diferentes Fins

A técnica de extração define a aplicação final do produto. O óleo prensado a frio é o preferido da indústria cosmética; por ser processado em temperaturas amenas (inferiores a 40°C), preserva os compostos voláteis e garante uma maior vida de prateleira (shelf-life). O resultado é um óleo de aparência dourada, límpida, textura fluida e aroma suave. Já a extração artesanal envolve o cozimento das sementes, retirada da polpa e o aquecimento via exposição solar ou prensagem manual, resultando em um produto mais rústico e potente para fins medicinais de aparência escura, turva e densa (Brito et al., 2024).

 

A Farmácia da Floresta

O reconhecimento científico do potencial medicinal da andiroba ganhou destaque global com o estudo de Hammer e Johns (1993). Ao entrevistarem moradores da Ilha do Marajó (Pará), os pesquisadores constataram o uso do óleo como repelente natural, cicatrizante e no tratamento de artrites, otites e inflamações tópicas ou orais.

A versatilidade da planta estende-se aos seus resíduos: a polpa restante da extração é transformada em velas repelentes. Essa eficácia foi corroborada por Dias et al. (2023), que confirmou a ação contra mosquitos do gênero Anopheles (vetor da malária) e o Aedes aegypti (transmissor da dengue, zika e chikungunya).

 

Sociobiodiversidade e Economia Regional

Na Floresta Nacional do Tapajós e na Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns, a andiroba é o pilar de cooperativas como a ACOSPER. As famílias coletam os frutos diretamente do solo após a queda natural, respeitando o ciclo da floresta. O processo envolve a quebra do "ouriço" (cápsula que protege as sementes) e o transporte para unidades de beneficiamento, onde as sementes são secas e processadas.

Paralelamente ao sistema cooperativista, sobrevive o extrativismo tradicional baseado no conhecimento empírico. Para esses coletores, o óleo possui um caráter quase ritualístico e é essencial na saúde comunitária, sendo utilizado em massagens pré-natais, auxílio ao parto e na fabricação caseira de xaropes anti-inflamatórios e remédios para distúrbios digestivos.

Essa rede de saberes e práticas evidencia o uso integral da andiroba. Seus benefícios terapêuticos e fitoterápicos são sustentados por uma rica composição de lipídeos bioativos, como os limonoides e ácidos graxos insaturados, que consolidam a espécie como um dos ativos mais importantes da bioeconomia amazônica (Palheta et al., 2025.)

 

Referências Bibliográficas

RASPE, D.; SILVA, I. D.; SILVA, E. D.; SALDAÑA, M.; SILVA, C. D.; CARDOZO-FILHO, L. Valorization of Carapa guianensis Aubl. seeds treated by compressed n-propane. Anais da Academia Brasileira de Ciências, 96, n. 3, 2024.

BRITO, M. P. d.; MAIA, A. A. B.; MIRANDA COSTA, J.; GOMES SILVA, S.; DE BRITO ALMEIDA, B.; SOUSA, R. L. d. Andiroba OIL’S (carapa guianensis Aubl.) mechanical extraction in a Cooperative in the city of Abaetetuba, Pará, Brazil. Concilium, 24, n. 12, p. 453-461, 2024.

HAMMER, M. L.; JOHNS, E. A. Tapping an Amazonian plethora: four medicinal plants of Marajo Island, Para (Brazil). Journal of Ethnopharmacology, 40, n. 1, p. 53-75, 1993.

DIAS, K. K. B.; CARDOSO, A. L.; DA COSTA, A. A. F.; PASSOS, M. F.; COSTA, C. E. F. d.; ROCHA FILHO, G. N. d.; ANDRADE, E. H. d. A.; LUQUE, R.; NASCIMENTO, L. A. S. d.; NORONHA, R. C. R. Biological activities from andiroba (Carapa guianensis Aublet.) and its biotechnological applications: A systematic review. Arabian Journal of Chemistry, 16, n. 4, p. 104629, 2023.

ACOSPER - Cooperativa dos Trabalhadores Agroextrativistas do Oeste do Pará. (n.d.). Retrieved April 21, 2026, from https://www.acosper.com.br/bioeconomia-andiroba

Palheta de, C., Wagner Oliveira, A., Cunha, D., Santos, C., Tavares, S., Júnior, X., & Ribeiro, S. (n.d.). BIOECONOMIA DA ANDIROBA (Carapa guianensis Aubl-MELIACEAE): RELATO DE CADEIA PRODUTIVA E PROPOSTA DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL EM SÃO JOÃO DA PONTA, PARÁ, BRASIL.