Castanha-do-Brasil: A oleaginosa versátil

Autora da publicação: Linda Gabriely Oliveira de Araújo

Proveniente de árvores de grande porte denominadas castanheiras, a castanha-do-Brasil (Bertholletia excelsa) é uma espécie nativa da Região Amazônica e peça central na cadeia extrativista. Tal atividade apresenta elevada relevância para a Região Norte, na qual os Estados do Acre, Amazonas e Pará são responsáveis por 80,7% da produção (Gazzola et al., 2024). Cientificamente catalogada e identificada no início do século XIX, a oleaginosa chegou a ser intitulada de “carne vegetal” por ser um alimento extremamente nutritivo. Suas aplicações são variadas: abrangem desde a extração de óleo até a obtenção de proteínas vegetais, caracterizando esta oleaginosa por sua versatilidade.

A castanha-do-Brasil é formada por uma estrutura lenhosa e resistente conhecida como ouriço. Rico em lignina, este material resiste a altas temperaturas e possui elevado poder calorífico, podendo ser utilizado na produção de carvão ativado, pellets e briquetes. A obtenção de fonte de energia por meio da queima desta biomassa é uma alternativa que vem sendo utilizada por indústrias e cooperativas, permitindo a redução de madeiras provenientes de desmatamento.

Dentro do ouriço são encontradas entre 10 a 25 unidades de amêndoas com formato triangular anguloso, também chamadas sementes ou castanhas propriamente ditas. Em sua composição destaca-se o teor de lipídios (60-70%) e proteínas (15-20%), além de metionina, um aminoácido essencial que algumas proteínas vegetais apresentam deficiência, e selênio (Santos et al., 2013). Este último possui papéis essenciais no corpo humano, como o auxílio na prevenção de processos oxidativos e fortalecimento do sistema imunológico.

A atuação da castanha-do-Brasil na promoção da saúde humana está relacionada à sua elevada concentração de composto fenólicos. De acordo com o estudo de Vasquez-Rojas et al. (2021), na composição da oleaginosa há predominância dos ácidos hidroxibenzoicos e flavanóis, componentes reconhecidos por seus efeitos antimicrobianos, antioxidantes e cardioprotetores. Assim, justifica-se sua capacidade de prevenir doenças inflamatórias e cardíacas, como a aterosclerose.

Apreciada pelo seu sabor e elevado valor nutricional, a castanha-do-Brasil tem conquistado cada vez mais espaço na mesa dos brasileiros, pois além do consumo in natura as amêndoas possibilitam a extração de óleo e bebida vegetal. Esta última, obtida a partir das sementes raladas, caracteriza-se como uma excelente alternativa para pessoas intolerantes à lactose, além de ser utilizada como base no preparo de receitas da culinária regional.

Formado por componentes relacionados à redução da incidência de doenças cardiovasculares, como o ácido oleico e palmítico, o óleo da castanha também contém vitamina E, um importante antioxidante natural. Além de usos culinários, este óleo tem sido amplamente utilizado em produtos cosméticos por grandes empresas, como Natura e Granado. Para a extração do óleo são coletadas as sementes pequenas e quebradas que não estão em conformidade com a classificação comercial. Um aspecto relevante do processo produtivo é a possibilidade de aproveitamento integral da matéria-prima: o subproduto obtido após o processo extrativo do óleo é chamando de torta ou farelo e tem sido alvo de estudos por seu potencial nutricional, funcional e tecnológico.

O elevado teor de proteínas e elementos como magnésio e manganês permite a utilização deste subproduto no enriquecimento nutricional de alimentos para tratar deficiências minerais. Mediante a crescente demanda por proteínas vegetais, a torta da castanha-do-Brasil tem se consolidado como matéria-prima estratégica na obtenção de isolados e concentrados proteicos, pois além de atender aos critérios da Anvisa, que estabelece teor mínimo de 40% para ingredientes proteicos vegetais, trata-se de uma alternativa sustentável e ética (Agência Nacional de Vigilância Sanitária, 2022).

Fonte: A própria autora, 2026.

 

O crescente desejo de reduzir impactos negativos decorrentes do uso do plástico convencional e seu descarte indevido no meio ambiente tem impulsionado a aplicação de matrizes biológicas no desenvolvimento de filmes e revestimentos biodegradáveis. Capazes de atuar como biopolímeros, as proteínas da castanha também podem ser utilizadas neste contexto, permitindo a obtenção de embalagens sustentáveis. Além disso,  a aplicação de ingredientes proteicos estende-se à emulsões alimentícias, massas, produtos cárneos e suplementos alimentares (Lemos; Feltes, 2025).

Por meio de processos biotecnológicos, resíduos podem ser convertidos em produtos de alto valor agregado, aplicáveis para indústrias alimentícias, farmacêutica, cosméticas, entre outras. Por este motivo, um dos estudos realizados por este grupo de pesquisa foca na extração das proteínas da torta da castanha-do-Brasil e na determinação de suas propriedades funcionais, tendo em vista que a utilização deste material no desenvolvimento de novos produtos é uma etapa essencial para sua valorização.

 

REFERÊNCIAS

 AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (Brasil). Resolução RDC nº 726, de 01 de julho de 2022. Dispõe sobre os requisitos sanitários dos cogumelos comestíveis, dos produtos de frutas e dos produtos de vegetais. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, ano 160, n. 126, p. 212-213, 06 jul. 2022.

GAZZOLA, Rosaura et al. Castanha-do-brasil com casca: Mercado mundial e taxas de crescimento. Revista Brasileira de Agrotecnologia, v. 14, n. 1, 30 dez. 2024.

LEMOS, Lúcia Mara Dos Reis; FELTES, Maria Manuela Camino. Exploring the nutritional and functional properties of Brazil nut (Bertholletia excelsa): A scientific prospection of nut-derived food products. Journal of Food Composition and Analysis, v. 141, p. 107363, maio 2025.

SANTOS, O. V. et al. Comparative parameters of the nutritional contribution and functional claims of Brazil nut kernels, oil and defatted cake. Food Research International, v. 51, n. 2, p. 841–847, maio 2013.

VASQUEZ-ROJAS, Wilson V. et al. Composition of Brazil Nut (Bertholletia excels HBK), Its Beverage and By-Products: A Healthy Food and Potential Source of Ingredients. Foods, v. 10, n. 12, p. 3007, 4 dez. 2021.