Leite bubalino do Arquipélago do Marajó: tradição queijeira e peptídeos bioativos

Autor da publicação: Caio Miguel Pantoja Mendonça

 

O Arquipélago do Marajó destaca-se como principal polo de bubalinocultura na Amazônia brasileira. Atualmente, o estado do Pará apresenta o maior rebanho de bubalinos do Brasil totalizando 775.075 cabeças, tendo como maior produtor do estado o município de Chaves, no Marajó (IBGE, 2024). A potência marajoara na criação da espécie remonta ao final do século XIX; registros históricos indicam que a introdução desses animais à região deve-se ao produtor Vicente Chermont de Miranda, o qual trouxe os primeiros exemplares ao Brasil. Em fevereiro de 1895, o produtor adquiriu os animais da raça mediterrânea do conde italiano Rospigliosi Camilo. Os bubalinos embarcaram no porto de Nantes, na França com destino ao Arquipélago do Marajó (Ferreira et al., 2021). A excelente adaptação ao clima e às áreas alagáveis permitiu que o rebanho apresentasse desempenho superior ao gado bovino. 

Fonte: Google Maps, 2026.

A Associação Brasileira de Criadores de Búfalos reconhece formalmente apenas quatro raças: Carabao, Jafarabadi, Mediterrânea e Murrah, sendo que todas possuem aptidão para carne e leite, caracterizando-se como boas fontes de matérias-primas para a indústria de produtos de origem animal;(Gerude Neto et al., 2023). Em comparação a matriz bovina, o leite bubalino apresenta maior rendimento na elaboração de produtos lácteos devido ao maior teor de cálcio, proteínas e gorduras. Ademais, a matriz láctea bubalina coloração branca, decorrente da ausência de β-caroteno que é completamente convertido em vitamina A. Outro diferencial é a presença de um pigmento chamado biliverdina que confere à esta matéria-prima uma sutil tonalidade azul-esverdeado, diferenciando-a de outras espécies.

Fonte: O próprio autor.

O queijo do Marajó consolida-se como é um dos principais produtos da pecuária marajoara, empregando-se tradicionalmente o leite bubalino em sua elaboração. A indústria leiteira local exerce impacto direto sobre famílias e empresas no arquipélago, apresentando grande relevância para bioeconomia. Isso ocorre porque sua cadeia produtiva é abrangente e integra desde o manejo na ordenha até a gastronomia típica, capaz de que promover o turismo e reforçar a identidade do produto por meio de um saber-fazer desenvolvido e preservado ao longo de décadas. 

Há duas variedades de queijo do Marajó, cujas distinções derivam de fatores históricos que modificaram seus métodos de produção.  Em meados de 1930, a introdução de desnatadeiras, por fazendeiros, permitiu a separação mecânica da gordura, dando origem à variedade tipo creme, enquanto os queijeiros continuaram a produzir o queijo tipo manteiga (Nascimento; Cruz; Calvi, 2019; Ferreira et al., 2021).  Atualmente, o produto conta com selo de Indicação Geográfica que garantiu maior visibilidade e valor agregado. Além disso, a legislação da Agência de Defesa Agropecuária do Estado do Pará (ADEPARÁ) regulamenta os aspectos de identidade e qualidade do produto e prescreve boas práticas de ordenha e fabricação.

 

Fonte: O próprio autor.

Os compostos mais valiosos do leite bubalino são as suas proteínas, tanto as caseínas quanto as proteínas do soro. Além de fundamentais na elaboração de queijos e outros produtos lácteos, essas macromoléculas também atuam como precursoras de compostos bioativos. A matriz proteica do leite é explorada para a produção de peptídeos bioativos (PB) devido ao seu alto valor biológico, isto é, apresentam um perfil equilibrado de aminoácidos, contendo todos os aminoácidos essenciais (Kashung ; Karuthapandian, 2025).

Os PB são sequências de aminoácidos oriundas de uma proteína precursora que se tornam ativas ao serem liberadas por hidrólise. Os fragmentos desempenham papéis importantes nas funções metabólicas dos organismos vivos e, consequentemente, na saúde humana, exibindo atividades biológicas que podem ser classificados, com base em seu modo de ação, em atividade: antimicrobiana, antitrombótica, anti-hipertensiva, opioide, imunomoduladora, antioxidante, ou ainda, agentes ligantes de minerais (Sánchez; Vázquez, 2017).

A função biológica dos PB depende diretamente da composição e da sequência de aminoácidos liberados da proteína precursora. O processo de obtenção é um fator determinante de qual sequência peptídica será gerada, podendo ocorrer por hidrólise enzimática, fermentação microbiana ou hidrólise química. Dentre esses métodos, a hidrólise enzimática destaca-se devido às condições brandas de temperatura e pH, à seletividade das enzimas comerciais e à ausência de reagentes químicos ou metabólitos secundários (Mora; Toldrá, 2023). Por ser considerado ambientalmente sustentável, esse método é o empregado pelo Grupo de Análise de Funcionalidades de Alimentos (GRAFA) para conferir maior sustentabilidade aos processos tecnológicos de obtenção de hidrolisados proteicos a partir de diferentes matrizes amazônicas.       

Ressalta-se que as proteínas do soro bubalino, resultantes da fabricação do queijo do Marajó, ainda são subutilizadas, sendo este resíduo majoritariamente destinado à alimentação animal. O aproveitamento tecnológico do soro representaria um avanço significativo na cadeia produtiva marajoara, promovendo o alinhamento com os preceitos da bioeconomia, além de mitigar os impactos ambientais causados pelo descarte inadequado. Essa estratégia possibilita a geração de bioprodutos de alto valor agregado, transformando uma matriz residual desperdiçada em fonte de inovação e renda.

Os estudos sobre proteínas do leite bubalino no Arquipélago do Marajó impulsionam o desenvolvimento tecnológico e econômico da Amazônia. Essas pesquisas demonstram inúmeras aplicações que vão além da indústria de alimentos, alcançando a obtenção de moléculas de alto valor agregado para os setores de química fina e farmacêutica. Nesse cenário, a investigação de PB surge como uma oportunidade estratégica para revelar o potencial biotecnológico de matrizes amazônicas. Alinhando-se a esta visão, o GRAFA dedica-se a explorar a funcionalidade das matérias-primas amazônicas e seus resíduos, visando contribuir com os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU) e protagonizar estudos voltados à economia circular na região.

 

Referências

FERREIRA, ALEXANDRE MIRANDA et al. As indicações geográficas do Pará: passado, presente e futuro. [S.l.]: Editora Itacaiúnas, 2021.

GERUDE NETO, Osman José De Aguiar et al. ASPECTOS DA CADEIA PRODUTIVA DE BÚFALOS NO BRASIL: UMA REVISÃO. RECIMA21 - Revista Científica Multidisciplinar - ISSN 2675-6218, v. 4, n. 10, p. e4104188, 15 out. 2023.

GOOGLE MAPS. Arquipélago do Marajó - Google Maps. Disponível em: <https://www.google.com/maps/place/Arquip%C3%A9lago+do+Maraj%C3%B3,+Anaj%C3%A1s+-+PA,+68810-000/@-3.5856019,-55.2416771,6.25z/data=!4m6!3m5!1s0x9298b193c0b8372d:0x5aba6a2a87297515!8m2!3d-1.000556!4d-50.207778!16s%2Fg%2F120p4_mc?entry=ttu&g_ep=EgoyMDI2MDQxNS4wIKXMDSoASAFQAw%3D%3D>. Acesso em: 20 abr. 2026.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA  (IBGE). Rebanho de Bubalinos (Búfalos) no Pará. Disponível em: <https://www.ibge.gov.br/explica/producao-agropecuaria/bubalinos/pa>. Acesso em: 18 mar. 2026.

KASHUNG, Phareichon; KARUTHAPANDIAN, Devi. Milk-derived bioactive peptides. Food Production, Processing and Nutrition, v. 7, n. 1, p. 6, 8 jan. 2025.

MORA, Leticia; TOLDRÁ, Fidel. Advanced enzymatic hydrolysis of food proteins for the production of bioactive peptides. Current Opinion in Food Science, v. 49, p. 100973, fev. 2023.

SÁNCHEZ, Adrián; VÁZQUEZ, Alfredo. Bioactive peptides: A review. Food Quality and Safety, v. 1, n. 1, p. 29–46, 1 mar. 2017.