Proteínas alternativas de origem vegetal: como as proteínas vegetais estão moldando o futuro da alimentação

Autores da publicação: Josué Manoel Souza Serrão e Juan Pablo Pires do Nascimento

 

A produção e o consumo de carne continuam em trajetória de crescimento em todo o mundo, impulsionados por fatores como o aumento populacional, a elevação da renda média e a intensificação da urbanização. Esse cenário vem acompanhado de transformações importantes no comportamento do consumidor, que passa a exercer um papel mais ativo nas escolhas alimentares, além de impulsionar a adoção de novas tecnologias e práticas mais sustentáveis na cadeia produtiva. Alimentos à base de plantas surgem não só como tendência de mercado, mas como uma resposta concreta aos desafios ambientais, produtivos e sociais associados a pecuária tradicional (COCHLAR et al., 2025).

Ao mesmo tempo, o avanço do setor de alimentos ocorre em um contexto desafiador: cerca de 820 milhões de pessoas ainda enfrentam insegurança alimentar. Diante disso, a organização das Nações Unidas (ONU) projeta um aumento significativo na demanda por alimentos nas próximas décadas. Estima-se que, até 2050, a população mundial alcance 9,5 bilhões de pessoas, exigindo uma elevação de aproximadamente 70% na produção de carne para suprir essa necessidade. É nesse contexto que as alternativas plant-based, proteína de origem vegetal, ganham destaque estratégico (PACHÁ et al., 2021).

 Essas alternativas apresentam potencial para reduzir a demanda sobre as proteínas de origem animal, diversificando as fontes de proteína disponível para a população. Ademais, alimentos de origem vegetal, possuem propriedades biológicas e podem, portanto, ser considerados alimentos potencialmente funcionais ou de promoção da saúde.

 Em diversas espécies vegetais, as proteínas destacam-se por estarem presentes em diferentes partes da estrutura vegetal, como sementes, folhas, flores, frutos, raízes, entre outros (BILDANOVA et al., 2013). Além disso, algumas de suas propriedades funcionais são atribuídas a peptídeos que após hidrólise projetam-se biologicamente ativos, cujos efeitos dependem da composição da proteína, do tipo de processamento aplicado no alimentos (como fermentação) e o tipo de hidrólise proteica, utilizando enzimas fisiológicas ou comerciais produzidas por microrganismos específicos. Desta forma, a proteína isolada a partir de fontes alternativas, como resíduos de processamento da agroindústria ou até mesmo alguns vegetais descartados, se tornam potencialmente viáveis como ingrediente alimentício para desempenharem propriedades funcionais físico-químicas e fisiológicas (PAREDES-LÓPEZ et al., 1985; SEGURA-NIETO et al., 1994).

Produtos Plant-Based

O mercado de alimentos de base vegetal tem se expandido através da oferta de produtos Plant-Based, formulados para atuar como análogos às proteínas de origem animal. Esses produtos utilizam uma matriz diversificada de matérias-primas, incluindo grãos, leguminosas e tubérculos, com o objetivo tecnológico de mimetizar as propriedades sensoriais da carne, como sabor, suculência, coloração e textura, visando a aceitabilidade por parte dos consumidores (Bohrer, 2019; Embrapa, 2020; GFI Brasil, 2020). Alguns exemplos de alimentos Plant-Based:

 Produtos análogos de hambúrguer vegetal

Hambúrguer feito à base de vegetais como a soja e grão-de-bico, desenvolvido para mimetizar a experiência sensorial de um hambúrguer tradicional, mas utilizando uma base 100% vegetal.

Fonte: A Casa Encantada.

Bebida à base de vegetais

Extratos líquidos obtidos a partir de fontes vegetais (grãos, sementes, oleaginosas ou leguminosas) que são processados para mimetizar a aparência e a textura do leite de origem animal. Sendo essenciais para dietas veganas e para quem possui restrições alimentares, como intolerância à lactose ou alergia às proteínas do leite (Aydar; Tutuncu; Ozcelik, 2020; Conceição et al., 2019; Ferrari, 2022)."

Fonte: Sesi.

PANCs

Outra alternativa nutritiva e sustentável vem ganhando cada vez mais espaço no mercado, são elas as chamadas PANCs (plantas alimentícias não convencionais), oferecendo proteínas e outros compostos bioativos que podem complementar a dieta e contribuir como fonte alternativa de proteínas. Plantas como Pereskia aculeata (ora-pro-nobis) e Moringa oleifera apresentam elevado valor proteico e podem ser utilizadas na elaboração de diversos alimentos, contribuindo para o aumento do seu valor nutricional. Essas espécies podem ser utilizadas, por exemplo, na produção de pães e massas enriquecidas, farinhas vegetais, sopas, sucos funcionais, hambúrgueres vegetais, bolos e até barras proteicas, ampliando as opções de alimentos mais nutritivos e sustentáveis. (THE GOOD FOOD INSTITUTE, 2023).

O incentivo ao cultivo dessas plantas contribui para a agricultura familiar, movimenta a economia local e promove sistemas alimentares mais resilientes. No entanto, a falta de informação sobre suas propriedades nutricionais e formas de preparo ainda limita seu aproveitamento pleno (Andrade et al., 2023; Jesus e Reges, 2019; Oyeyinka e Oyeyinka, 2018).

 

Bolo elaborado com Farinha de Pereskia aculeata (ora-pro-nóbis).

                                                            Fonte: leticiadicas_fit

Diversidade de PANCs

Diante do crescimento contínuo da demanda global por alimentos, impulsionado por fatores como o aumento populacional, a urbanização e a elevação da renda, torna-se evidente a necessidade de ampliar a oferta de fontes proteicas que não sejam as convencionais. Nesse contexto, as proteínas de origem vegetal emergem como uma alternativa estratégica, capazes de contribuir simultaneamente para a segurança alimentar, a sustentabilidade ambiental e a promoção da saúde.

 

Fonte: UFMS

Os alimentos plant-based, além de ampliarem as opções de consumo, apresentam potencial para reduzir a pressão sobre os recursos naturais e diversificar as fontes proteicas disponíveis. Paralelamente, o aproveitamento de plantas alimentícias não convencionais (PANCs), como a ora-pro-nobis e a moringa, reforça essa perspectiva ao oferecer alto valor nutricional, estimular a agricultura familiar e favorecer sistemas alimentares mais resilientes.

Entretanto, apesar dos avanços tecnológicos e do crescimento do mercado, ainda existem desafios importantes, como métodos emergentes para extração eficiente de proteína, a necessidade de maior disseminação de informações, acessibilidade econômica e desenvolvimento de produtos que atendam plenamente às expectativas dos consumidores.

Assim, a integração entre inovação tecnológica, ciência, valorização da biodiversidade e práticas sustentáveis são fundamentais para consolidar as proteínas vegetais como protagonistas no futuro da alimentação, contribuindo para um sistema alimentar mais equilibrado, inclusivo e sustentável.

 

REFERÊNCIAS:

AYDAR, E. F.; TUTUNCU, S.; OZCELIK, B. Plant-based milk substitutes: Bioactive com pounds, conventional and novel processes, bioavailability studies, and health effects. Journal of Functional Foods, v. 70, p. 103-975. 2020.

CONCEIÇÃO, D. A.; PALLONE, J.; SILVA, J.; CARAMÊS, E. Potencial bioativo de bebi das vegetais. Revista dos Trabalhos de Iniciação Científica da UNICAMP, Campinas, n. 27. 2019.

FERRARI, M. C. Proteínas e ingredientes alternativos no desenvolvimento de produtos plant based: uma visão sobre sustentabilidade na cadeia de produção de alimentos e a valorização de ingredientes nativos do Brasil. Trabalho de Conclusão de Curso em Ciência e Tecnologia de Alimentos, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, p. 1-75. 2022.

PACHÁ, Carlos et al. Proteínas alternativas. Brasília: Fundação Alexandre de Gusmão (FUNAG); Insper, 2021.

COCHLAR, Tatiana Barbieri et al. Evolução e desafios dos alimentos plant-based: sustentabilidade, acessibilidade e soberania alimentar. 2025

BRASIL. Ministério da Agricultura. Produção de alimentos. 2022.

JÚNIOR, Ademir. O potencial inexplorado das PANCs: uma revolução silenciosa na saúde e na ciência. 2025.